Primavera Interior: Coragem, Vulnerabilidade e o Salto de Fé

O verdadeiro caminho só se abre quando deixamos para trás o que já cumpriu o seu papel

Paula Roquette

9/15/20257 min read

closeup photography of plant on ground
closeup photography of plant on ground
A primavera que chega do lado de fora e também dentro de nós

Estamos a poucos dias da tão aguardada Primavera, um momento significativo do ciclo natural, rico em simbolismos de renovação e renascimento. É esse movimento da natureza que me inspira a escrever e compartilhar reflexões, convidando cada um a despertar para a possibilidade de abrir-se, dar um salto de fé e iniciar novos caminhos.

Quando a vida cobra demais e esquecemos de ser nós mesmos

É comum que, em meio a uma rotina extenuante, nos sintamos desmotivados. Somos levados a acreditar que precisamos corresponder a exigências que não nos pertencem, muitas vezes impostas de forma sutil, outras vezes escancaradas. Isso se reflete, inclusive, nas redes sociais, onde a busca por aceitação nos coloca diante de cobranças desumanas e pouco realistas. Ali, somos incentivados ao enquadramento, à performance e à competitividade e, nesse processo, corremos o risco de perder de vista nossas particularidades e a essência de quem realmente somos.

Do ruído para o silêncio: a escrita como caminho de autoconhecimento

Quem me acompanha no Instagram já percebeu meu esforço em buscar caminhos que suavizem essa pressão. Tenho recorrido à escrita aliada ao Tarot como uma possibilidade de reconexão íntima, um espaço para refletir e respirar. Foi assim que nasceu o Diário das Estações: Um Caminho com o Tarot – Volume 1 (Primavera), uma proposta para, coletivamente, invertermos o fluxo da exposição excessiva e reencontrarmos o valor da introspecção.

De professora à taróloga: o salto de fé mais ousado da minha vida

Para quem ainda não me conhece, quero compartilhar um pouco dos últimos dois anos da minha vida, um período de grandes transições e aprendizados. Hoje, tenho 35 anos, sou taróloga e moro em Florianópolis, Santa Catarina. Sou natural de São Paulo, formada em Pedagogia, e atuei como professora na rede pública por quase 15 anos.

Em 2019, passei por uma cirurgia de emergência. Esse evento trouxe à tona questões de saúde no meu sistema reprodutivo e me marcou profundamente. Foi um momento que me fez perceber a necessidade de ressignificar tudo o que eu havia vivido até então: eu precisava encontrar respostas para aquele sofrimento e construir novos caminhos que me aproximassem de quem eu realmente sou. No fundo, sentia que tudo aquilo tinha um propósito maior.

Durante o namoro com meu marido, comecei a me aprofundar nos estudos das ciências ocultas. Descobri nos oráculos, como o Tarot e a Astrologia, um universo rico para buscar respostas em saberes mais antigos. Hoje, atuo profissionalmente como taróloga e proponho ir além da consulta pontual: utilizo o Tarot como ferramenta de autoconhecimento, aliada a registros simples em diários de tiragem. Essa prática conecta-nos a partes inconscientes de nós mesmos, permitindo compreender melhor o cotidiano, ampliar a visão e imaginar caminhos onde antes parecia não haver saída.

Em 2023, casei-me e, poucos meses depois, nos mudamos para Florianópolis com a esperança de escrever um novo capítulo em nossas vidas. Saúde e qualidade de vida tornaram-se prioridades — e continuam sendo. Antes disso, deixar a sala de aula nunca havia estado nos meus planos; ali eu garantia minha sobrevivência. Mas a vida nos leva por caminhos inesperados: meu atual quadro de saúde e a mudança me obrigou a abandonar o que era seguro e confortável e a explorar novas possibilidades.

Confiar no desconhecido: o que o Louco me ensinou sobre coragem

Com a chegada da primavera, setembro se abre como um ciclo de recomeços. E, no Tarot, não haveria arcano mais apropriado para simbolizar esse desabrochar do que O Louco — aquele que, despido de certezas, se lança à jornada com confiança e liberdade, permitindo-se ser guiado pelo chamado da vida.

Como pedagoga, a sala de aula sempre foi um porto seguro; com anos de experiência, entrar em uma classe nunca me assustou. No entanto, toda essa transição exigiu que eu enfrentasse territórios desconhecidos, reconhecesse fragilidades e me permitisse ser vulnerável. Quero partilhar isso para inspirar quem, assim como eu, vive uma fase de transição delicada e que exige coragem.

Não se engane, essa fase da vida ainda me pede ousadia: ousadia para revelar uma nova versão de mim mesma, que nem sempre é reconhecida ou compreendida pelas pessoas ao meu redor. Sei que alguns questionavam e questionam minha sanidade diante desses passos, mas meu caminho provocava reações — inspirando uns, despertando inquietações em outros, especialmente naqueles que gostariam de ousar, mas não conseguem sair da zona de conforto.

O movimento que empreendi foi arriscado, talvez o mais arriscado da minha vida, e é um processo profundo. Muitas vezes penso que já superei uma etapa, mas percebo que ainda estou em um estágio anterior, precisando rever, refletir e dar o próximo passo. Assim como o Arcano O Louco, que se lança ao desconhecido com leveza e confiança, avancei com pouca bagagem, confiando que cada passo revelaria o caminho. Se projetos e planos não se realizaram, por que persistir em planos pequenos, quando um plano maior nos aguarda? Soltar o controle e abraçar a vida como ela é tornou-se essencial.

Virgem e Peixes: entre o controle e a entrega

Os eclipses deste mês de setembro — especialmente no eixo Virgem-Peixes — intensificaram esse movimento em minha vida. No meu mapa natal, Peixes ocupa a Casa 11, ligada ao coletivo e aos projetos compartilhados, enquanto Virgem está na Casa 5, relacionada à criatividade, à expressão pessoal e ao poder interior. É como se, neste momento, eu fosse chamada a revelar minha luz criativa ao mundo, mas também confrontada pelas sombras virginianas: autocrítica, perfeccionismo e necessidade de controle.

Mudanças sempre geram desordem: tudo parece perder o seu lugar para dar espaço a algo novo. Esse aparente caos é necessário para que uma nova ordem surja. Além da sensação de desorganização, insegurança e medo acompanham esse processo. Esse é um lugar de desconforto e incertezas, como um broto que ainda não sabemos se vingará, mas que precisa de espaço e nutrição para crescer.

No meu caso, mudar de cidade, deixar a carreira de professora, trocar a rotina e me reinventar como taróloga resultou em um isolamento social e ao constante sentimento de deslocamento. Atualmente experimento o medo de me expor, a dificuldade em confiar no meu próprio valor e a tendência de me isolar como forma de proteção. A solidão que sinto em meio à falta de vínculos no novo lugar mostra, na verdade, que não é apenas o ambiente ao redor que mudou, mas também algo dentro de mim: uma baixa autoestima e a perda de confiança.

Esse conflito interno me fez enxergar que o isolamento que vivo após tantas mudanças não é apenas solidão, mas medo. Medo de me lançar em uma vida mais ousada, apaixonada e vulnerável.

A coragem de ser imperfeita: um antídoto contra a cultura da escassez

Vivo hoje um dilema profundo: por um lado, sinto a necessidade de me revelar ao mundo para que pessoas que ressoam com meu trabalho possam me encontrar e se interessar pelo que ofereço. Por outro lado, preciso lidar com o território das redes sociais, que ainda são o lugar onde a maior parte da atenção coletiva está concentrada.

Esse movimento me confronta diretamente com uma questão que se tornou cada vez mais discutida em nossa sociedade: o narcisismo. Nas redes sociais, vemos esse fenômeno se expressar de várias formas — na busca incessante por reconhecimento, na exibição da vida perfeita, na comparação constante e na necessidade de aprovação externa. Muitas vezes, confundimos narcisismo com vaidade ou egocentrismo, mas Brené Brown, em A Coragem de Ser Imperfeito, traz uma perspectiva diferente e reveladora. Ela analisa o narcisismo pelas lentes da vulnerabilidade e traz uma conclusão poderosa: o narcisismo não nasce da soberba, mas sim do medo — o medo de ser humilhado, de ser comum, de não se sentir bom o bastante para ser notado, amado ou aceito.

Quantas vezes não buscamos provar o contrário? Muitas pessoas passam a vida tentando acreditar que são suficientemente boas, agarrando-se à ideia de grandeza ou à necessidade de admiração como um bálsamo para aliviar a dor de se sentirem inadequadas. Esse mecanismo, alimentado pelas redes sociais, nos prende em uma lógica cruel: sempre achamos que falta algo, que poderíamos ser melhores, mais bonitos, mais inteligentes, mais produtivos.

Mas Brené Brown nos lembra de algo essencial: o oposto da escassez não é o excesso. Excesso e escassez são apenas lados opostos da mesma moeda. O verdadeiro antídoto para a escassez é o suficiente — ou, como ela chama, a plenitude. Viver em plenitude é abraçar a vulnerabilidade como parte essencial da vida: enfrentar a incerteza, os riscos e a exposição emocional confiando que já somos bons o bastante.

E aqui volto à minha própria experiência. As mudanças recentes me mostraram o quanto eu vinha evitando a vulnerabilidade, isolando-me para não enfrentar o risco da rejeição ou da frustração. No entanto, assim como a primavera nos convida a florescer mesmo depois do inverno, percebo que esse é também o meu chamado: abrir-me para a vida com coragem, aceitando que a beleza está justamente em ser quem eu sou, sem precisar me encaixar em ideais inalcançáveis.

A confiança como fruto da vulnerabilidade

Uma das saídas que encontrei para enfrentar esse dilema foi compreender que a confiança não nasce pronta. Como aponta Brené Brown, ela é fruto da vulnerabilidade, cresce com o tempo, exige trabalho constante, atenção e comprometimento. Confiar em mim mesma significa aceitar que não tenho todas as respostas, mas que cada passo dado com coragem é, por si só, suficiente.

Essa jornada não pode ser vivida sozinha. A vulnerabilidade pede apoio: pessoas que nos acompanhem na tentativa de trilhar novos caminhos de ser, que não nos julguem e que nos acolham em nossas fragilidades. Hoje, abro-me não apenas para oferecer ajuda através do que sei e do meu serviço, mas também para receber ajuda, para permitir que esse movimento seja mútuo e gere vínculos verdadeiros.

Ao compartilhar aqui minhas dificuldades, dúvidas e medos, escolho mostrar que a vulnerabilidade não é fraqueza, mas o ponto de partida de uma força autêntica. Que possamos, juntos, desenvolver relações baseadas nesse espaço seguro de confiança e verdade, e não mais em ideais de perfeição inalcançáveis.

Aprendo, assim, que meu valor não está no reconhecimento externo, nos acertos ou nos resultados, mas na coragem de continuar, mesmo sem garantias. A coragem é o meu guia, a coragem é o meu valor, e isso basta. Assumir a vulnerabilidade, abraçar a vida a partir da autovalorização e do merecimento — este é o caminho que sigo, e o convite que deixo a você.

O Tarot também aponta para esse caminho. O Arcano do Louco, regente deste momento de recomeços, é o símbolo máximo da vulnerabilidade transformada em potência. Ele nos convida a caminhar confiando no processo, ainda que não saibamos onde o próximo passo vai nos levar. Como a primavera que irrompe sem garantias, mas com a força irresistível da vida, o Louco nos inspira a deixar para trás a escassez e abraçar a plenitude de simplesmente ser.

O verdadeiro caminho só se abre quando deixamos para trás o que já cumpriu o seu papel.